Considerações sobre o Serviço Civil em Saúde
maio 6, 2011 em BLOG por Equipe do Blog
por Diângeli Soares, estudante de medicina da Universidade de Caxias do Sul (RS). Do blog Círculo de Blogueir@s Socialistas
A proposta de instituir um Serviço Civil em saúde, para expandir a cobertura assistencial em áreas remotas do país, começa a deslanchar. A idéia voltou a ser assunto ainda em 2009, quando o Conselho Nacional de Saúde deliberou, em reunião ordinária, ser a favor da criação de um serviço civil em saúde para egressos de escolas públicas. Logo depois, no mesmo ano, voltou a tramitar no congresso uma série de Projetos de Lei propondo que o serviço fosse instituído em caráter obrigatório. A discussão ameaçou sair de pauta, quando as modificações no Serviço Militar Obrigatório para médicos e outros profissionais da área da saúde vieram à baila. Entretanto, recém completados cem dias do novo governo, a idéia mostra que veio para ficar. Desde o dia 18 de Abril, Estudantes de medicina de todo o país estão respondendo a questionários do Ministério da Saúde sobre a implantação do projeto, já apresentado no começo do mês em Brasília, durante Seminário Nacional sobre Escassez, Provimento e Fixação de Profissionais de Saúde em Áreas Remotas e de Maior Vulnerabilidade
A proposta que vem sendo apresentada pelo novo Ministério da Saúde parece ser uma evolução da idéia original. Não se fala mais em obrigatoriedade, mas sim em voluntariado. Trocada em miúdos, a proposta da SGETES (Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde) é criar, sob o nome de “serviço civil”, um pacote de incentivos para que os egressos dos cursos da saúde se estabeleçam em áreas de maior vulnerabilidade, mesmo que por períodos curtos, de um a dois anos. O caráter destes incentivos é justamente o ponto no qual os estudantes estão sendo convidados a opinar. “O que faria com que você deixasse Porto Alegre para se estabelecer em um lugar como Nova Ipixuna, Pará? Salário? Pontuação extra para a prova de Residência? Auxílio-Moradia? Outros? Quais?”
Primeiramente, é tranquilizador observar que a proposta de um serviço civil obrigatório parece, a princípio, não encontrar eco no Executivo. A concepção de um serviço civil “compulsório”, aos moldes do Serviço Militar, com foco nos egressos de escola pública, tem pelo menos dois efeitos nefastos sobre a cultura política do Brasil: Primeiro, reforça o entendimento distorcido de que a educação pública é “favor” e não direito, já que o serviço civil serviria como “pagamento” por um ensino pretensamente gratuito. Sabemos bem que não é. O segundo, é o impacto sobre a saúde pública, especialmente no que se refere à Atenção Primária. Não interessa a ninguém, muito menos aos usuários, transformar a porta de entrada do sistema em um eterno “bico” de recém-formados (desestimulados e mal remunerados). Se o Ministro Padilha fala sério quando diz que a “busca da qualidade na assistência é um fator essencial para a consolidação do SUS”, encontraria na proposta de um Serviço Civil Obrigatório o seu maior obstáculo.
As propostas de Serviço Civil sempre tiveram sentido pelo seu caráter quantitativo e não qualitativo. Faltam médicos, enfermeiros e dentistas? Porque não usar essa imensa massa de jovens que se formam todos os anos? Se servir a pátria é monitorar as fronteiras, porque servir à pátria não pode ser servir de médico no interior? O apelo do Serviço Civil, perante gestores, usuários e parlamentares, sempre foi atrelado a sua capacidade de suprir os serviços em termos de mão de obra, mesmo que em caráter emergencial, muito mais do que por seus eventuais impactos na qualificação do sistema, ainda que estes sejam bem-vindos. E esta é a grande fragilidade do Serviço Civil de caráter voluntário. Se a partir de 2012 é instituído um serviço civil obrigatório para médicos, a partir de 2012 o Estado sabe que poderá contar com pelo menos 15 mil novos médicos para distribuir por todo o país. Se em 2012 é instituído um Serviço Civil Voluntário, a garantia de aporte já não é mesma. E provavelmente será bem mais modesta.Leia também:
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Os programas de residência médica, dentre outros objetivos, primam por prover hospitais de mão-de-obra barata, em qualificação. O sub-emprego seria a contra-partida pelo treinamento mais (ou menos) estruturado que o médico recebe.
Se o serviço civil for pré-condição, ou critério diferencial para acesso aos programas de residência médica em hospitais de ensino federais, o SUS certamente poderia contar com um fluxo permanente de profissionais temporários, inexperientes, atuando no interior do país. Mas adiantaria?
Atuar na atenção primária, em equipamentos de saúde (quando existem) com limitados meios de diagnose e terapia, requer preparo e treinamento específico, que estão além do currículo de graduação de muitas escolas médicas. Seria necessário suporte intensivo e permanente por tutores à distância, empregando telemedicina (não haverá banda larga nos estabelecimentos de saúde?) e grande articulação intersetorial. É possível, mas desafiador – aliás, o que não é desafiador no SUS?